29 de jun. de 2014

Sombra e beijo














Uma sombra de árvore.
Uma grama seca, com uma canga bonita.
E nós deitados.
O dia passando.
Ainda espero um beijo.
Ainda espero sua respiração próxima de meu ouvido.
É só um querer.
Seus olhos duvidosos.
Não me dão chance,
mesmo querendo também ...

Eu me senti sair do seu abraço,
e você esperar que eu tivesse ficado mais.
Eu indo embora e você falando
Como quem não deixa acabar.
O dia, a tarde, a noite.
Aperto de tristeza e felicidade.
Cansa, sabe?
Mas, é a agonia da esperança que faz tudo se repetir.
E eu sigo ...
Espero que um dia todo o desejo se concretize.
Espero que nunca se concretize,
e que fique apenas assim, porque é mais fácil.
Porque é doce não viver.
E foi doce aquela tarde.
Mesmo sem árvore, sem canga e sem beijo.

19 de fev. de 2014

ô !

ele está vivo
me faz até pintar as unhas
e eu não gosto de pintá-las
demoro três dias para tê-las prontas
meu violão está calado
por isso posso até me colorir
não consigo tocar
mas, em mim arde à tarde
e, de noite … “de noite ardo”
até me lembrei do famoso verso
hoje me coloro de diversas maneiras
e, em breve vou colorir mais alguns pedaços de mim
a chuva caindo de novo
uma felicidade a mais
                                                                                   é isso. vou me deitar
                                                                                   é assim o dia todo, canso o corpo e,
                                         não do que ando sentindo …                                                                                          
                                     
Cintia Godoi

23 de jan. de 2014

Será ?



Quis escrever
Tentar descrever um movimento
Curvando-se
Voltas que eu sei de que cor são
Algo que nunca gostei
Mas que hoje me chama a atenção
Arrepia até
Que será?
Sei dos contornos arredondados
da firmeza
da nuca
de um pescoço que não conheço, mas posso desenhar
Escrevi enfim
só para ler depois
e me lembrar de que um dia, do nada, senti tudo isso.

7 de ago. de 2013

Com amor para os homens.

 

Sonhei com meu pai. Ele estava como há muito não me lembrava dele ter sido. Bem forte, moreno, mas ao mesmo tempo vermelho de sol. Como em viagens que fizemos de férias. De shorts, acho que azul, daqueles com listras do lado. Acordei feliz de poder tê-lo revisto. O dia foi passando. Não me lembrei mais do sonho. Ouvi dizer que era aniversário de um tio. Me lembrei dele. Me lembrei que ele gosta muito que a gente lembre do aniversário dele. Mais horas se passaram. Trabalhei, fui, voltei, cuidei do meu filho. Tentei enviar bons sentimentos para meu pai e para meu tio. Mas, não falei com nenhum deles. A noite chegou e eu cuidando do meu bebê. O marido fora, ia demorar para chegar. O trabalho dele pesando também em seu dia a dia. Tantos homens em minha vida! Quando fui jantar, sem muita energia para fazer a coisa direito esquentei um queijo, um pão de queijo, e coloquei um suco para beber. O suco … tão doce … me trouxe todo o sentimento do dia, toda a saudade de todos. Meu pai, meu tio, meu marido. Meu filho comigo, ainda bem! O suco era de tangerina. E eu senti a tarde ensolarada de Uberlândia, revivi a experiência de ver o chão amarelado da cozinha, a geladeira se abrindo. Peguei uma garrafa de vidro, sem rótulo, da Pomar, com uma tampa alaranjada. Meu pai trazia esses sucos, acho que vinham de Araguari, de suas andanças. Eram sucos concentrados, e a gente colocava água e gelo e se deliciava. O mesmo suco que ele trazia, o mesmo sabor daquelas tardes. Meu pai na varanda. Meu tio na árvore, lendo um livro de bolso. A saudade apertou forte. E eu só pude escrever … Felicidades ao meu Pai, ao meu Tio, e a todos os homens que sabem viver os sabores da vida. Sigamos.

19 de jan. de 2013

Amores

Estive parada um tempo.
Estive por aí.
Perdida sem mim.
Não que não quisesse escrever, pintar, desenhar.
Eu não conseguia.
Mas, a cabeça fez tudo que o corpo não pôde.
Eu pintei, cantei, compus.
Tudo do mesmo jeito.
Mas, sem poder mostrar pra ninguém.
Nada se materializou.
Nada por ser revisto, refeito, reconhecido.
E quando enfim pude recomeçar ...
as palavras e vontades voavam, corriam apressadas.
Os pensamentos saltavam.
Precoces!
A letra feia correndo.
O sorriso aberto.
Os olhos atentos.
Feliz percebi: voltei para mim !
Posso viver para outros, mas também preciso de mim!

Cintia Godoi

15 de set. de 2012

Tralhas



Ele tem um cemitério de spots e espelhos
E o mantém em um armário de corredor
Seu filho me dá as mãos todos os dias
E o calor dos tempos secos de agosto e setembro
Nos fazem rever as tralhas guardadas com amor

Suas mãos tao pequenas tocam e esticam minha pele
E sempre que isso acontece eu também lhe dou a mão
Esperando por uma hora em que a chuva se revele
E que seu rosto possa chegar perto de meu peito

As tralhas revistas e arrumadas
O tempo seco vai se indo
Uma cria vem chegando
E ele segue organizando caixas, ferramentas e pilhas

Logo logo estaremos juntos
Em meio à coisas, fios, panos, roupas e aparelhos
Deitados ouvindo o som da música, da TV, dos velhos e inúteis spots e os espelhos


Cintia Godoi

4 de mai. de 2012

Os valores humanos.


Os pedágios aumentaram de preço.
Quanto mais fluxos e interesses havia num espaço, mais caro era para se chegar até ele.
E todos se acostumavam com tudo, pois as coisas, as mudanças eram feitas aos poucos, sutis e por vezes inescrupulosas.
Onde chegariam?
Queriam o máximo, sempre quiseram o máximo da exploração e da riqueza.
Assim privatizaram os espaços, nunca completamente, para não ficar evidente demais.
Todos podiam ir a qualquer lugar. Era só pagar o pedágio, o estacionamento, o manobrista e a entrada nos lugares.
Quem quisesse ir à pé ou com transportes coletivos sofria horas de espera e de exposição ao clima.
Como sempre houve muitos espaços e riquezas, as privatizações não chegavam a ser um problema tão sério.
Se não podiam ir a lugares caros, as pessoas se dirigiam à outros lugares. Com menos estrutura, ou nenhuma, os lugares não privados eram morada, área de lazer e de trabalho da maior parte da população.
Os grupos se dividiam, a hierarquia crescia e os espaços eram ocupados por diversas atividades, de forma indiscriminada.
A racionalização se impunha à vegetação, aos solos, e aos animais.
As plantas tinham espaços delimitados. Foram selecionadas algumas espécies que ocupariam mais espaços. Bem como aconteceu com os animais. Foram engaiolados, criados, alguns extintos, outros tiveram sua população conhecida, estudada e aumentada.
A espécie humana foi uma das mais bem sucedidas na apropriação do espaço, das suas formas e de seu conteúdo.
E, tendo obtido sucesso, esta se concentrou em produzir seu poder dentro de sua própria espécie.
Criando, mudando, racionalizando, excluindo, incluindo elementos que fossem determinados politicamente como necessários ao uso do espaço.
Cada grupo com sua função, cada lugar com sua função, hierarquizando as pessoas e os lugares, fazendo girar tudo de forma dinâmica, de forma que as pessoas e os lugares – envolvidos pelo medo de não pertencer ao movimento – reproduzissem a dinâmica da hierarquia, da apropriação e da privatização. 
                                                                                                                                       Cintia Godoi